Houve um denominador comum: os edifícios dos centros de Lisboa e do Porto foram deixando de ter gente.

Abriu-se uma porta de uma casa no Centro Histórico. De dentro saltou a primeira página amarelada de um jornal. Era o ‘Expresso’, antevendo umas eleições legislativas, em 1980. Em cima, no cabeçalho, o nome do diretor: Marcelo Rebelo de Sousa.
Há 35 anos, quando este jornal foi impresso e colocado na soleira de uma porta e ali ficou, sem leitor até esta semana, Portugal era diferente. Saía de uma década quente e entrava na epopeia da integração e crescimento. Dou-me conta, Sá Carneiro estava prestes a obter uma maioria absoluta.

Desde então, Portugal viveu uma relação bipolar com o desenvolvimento e a pobreza. Nos 35 anos anteriores, também, com o próspero e o decadente. Mas nos últimos 150 anos, houve um denominador comum: os edifícios dos centros de Lisboa e do Porto foram deixando de ter gente.

A página amarelada de qualquer jornal que venha a saltar de dentro de uma porta de um desses prédios, fechados há décadas, nunca nos falará do repovoamento do coração da cidade. Houve, é certo, programas que visavam manter habitantes. Mas foram pontuais, descontinuados e coabitaram com oferta de habitação social na periferia.

Esta página do ‘Expresso’, que saltou para o meio da Rua dos Caldeireiros na quinta-feira, foi lida, finalmente, porque eu e o meu vereador abrimos a porta, para que o prédio seja reabilitado e acolha famílias em regime de renda social. O pó e as memórias que por lá pairam, nas sanefas de janelas quebradas pelo tempo, darão lugar a nova vida e novos moradores, muitos deles os “velhos” moradores, há anos empurrados para blocos sociais.

Apesar do que afirmam os arautos da desgraça, não foram expulsos pelo turismo, que então nem existia. A maioria, quando no passado lhes perguntavam onde queriam viver, não queria viver num centro histórico desconfortável e desinteressante. A Câmara do Porto começou agora a criar condições para que regressem. Não apenas porque vai transformar ruínas em habitação, mas porque há hoje o desejo de lá viver.

A gentrificação e a desertificação dos centros históricos não é culpa nem do turismo nem da movida nem dos moradores. É um fenómeno com séculos que resulta de más políticas. Modestamente, no Porto cremos estar a inverter esse paradigma. Mesmo que os efeitos só venham a ser reconhecidos nas capas dos jornais daqui a 35 anos, graças ao primeiro programa do género na história da cidade, hoje.

 In Correio da Manhã

31.07.2016