Select Page

Grupo de ciganos ganha a vida sacando indemnizações a condomínios de luxo

Grupo de ciganos ganha a vida sacando indemnizações a condomínios de luxo

Primeiro acto: uma mulher jovem dá sinal para um apartamento. Segundo acto: a família aparece e instala-se nas piscinas e zonas comuns. Terceiro acto: por uma boa maquia, a compradora acede a rescindir o contrato. É fácil. E legal

Uma rapariga, loura, de olhos azuis, distinta no trato e na apresentação. É este o perfil, descrito por agentes imobiliários, da protagonista de uma rede de falsos compradores de apartamentos de luxo. O Algarve é a região mais atingida, mas a “organização”, formada por pessoas de etnia cigana, está montada à escala nacional. O estratagema consiste em forçar o vendedor a rescindir o contrato-promessa de compra e venda, obtendo o dobro do valor do “sinal” entregue. As indemnizações oscilam entre os 15 e os 45 mil euros.
A mulher, de apelido Teles, com cerca de 30 anos, é a personagem central da história. Dirige-se aos empreendimentos, geralmente condomínios fechados com jardim e piscina, para comprar casa. Os vendedores, à primeira vista, de nada desconfiam. Quando falam em pagamentos, dispensa empréstimos bancários, justificando com o facto de o marido, ausente no estrangeiro, ser “homem de negócios”.
Passados dois a três dias sobre a assinatura do documento, que lhe confere o título de futura proprietária, pede a chave, para “mostrar à família” a nova casa. E é aqui que, verdadeiramente, entra em acção o plano de coacção psicológica. A rapariga, nessa altura, já não chega sozinha, vem acompanhada da “família” – um grupo de mais duas ou três dezenas de pessoas, homens, mulheres e crianças. Mal chegam, fazem-se donos de todo espaço do condomínio. Os miúdos, vestidos e calçados, atiram-se para dentro da piscina, ao mesmo tempo que os adultos ocupam o relvado.
Só no Algarve, o PÚBLICO detectou, mais recentemente, meia dúzia destas situações. Porém, esta organização já vem actuando há mais tempo, noutras regiões do país, nomeadamente em Matosinhos e Portalegre.

“Pagamento em notas”
Em Vilamoura, o empreendimento turístico Mourapraia – um condomínio fechado com cerca de um hectare de logradouro – foi um dos que recebeu a visita da “família” cigana. No passado mês de Agosto, no escritório de vendas, apresentou-se como potencial compradora “uma rapariga, branca, loura, de olhos azuis”. É este retrato feito por Infante do Nascimento, gerente da imobiliária.
Quando chegou, a pé, a mulher disse: “Deixei o carro na praia.” O seu interesse recaiu num imóvel de 275 mil euros. Quanto ao preço, não teve dúvidas: “Tudo bem. Já falei com o meu marido, que tem negócios na Alemanha, quero fazer a escritura o mais depressa possível.”
Para sinalizar o contrato, entregou 15 mil euros, em notas. “Não é hábito o pagamento em dinheiro, mas não duvidámos. No Verão há pessoas deslocadas, – emigrantes, em férias – é normal não terem cheques em seu poder.” A mulher que assina o contrato-promessa de compra e venda figura como solteira no bilhete de identidade. Mas o gerente não estranha. “É normal as pessoas viverem em união de facto”, acrescenta.

Discussão e ameaças
Passados dois dias, a compradora regressa com um bebé ao colo. E “já usava saia comprida e lenço na cabeça”. A acompanhá-la, um casal – cunhados, assim os apresentou – e mais dois miúdos. Mal entraram no empreendimento, “os rapazes, vestidos e calçados, atiraram-se para dentro da piscina, obrigando as restantes pessoas a abandonar o local”.
No dia seguinte, formou-se uma espécie de acampamento junto à piscina. Em resposta à situação, o segurança tentou pôr o grupo na rua, alegando “comportamento anti-social e violação do regulamento do condomínio”. Os ânimos exaltaram-se, houve ameaças de navalhadas e a GNR foi chamada ao local.
Ao grupo, no dia seguinte, juntou-se o marido de Teles, dizendo chamar-se Nelo da Purificação. No meio da discussão, o cunhado da rapariga propõe-se ser também investidor: “Quero comprar um apartamento e pago já.” Perante a recusa do vendedor, queixam-se de estarem a ser “discriminados por serem ciganos” e ameaçam não abandonar o local.
De novo foi solicitada a presença da GNR, mas como as ameaças de facada e pancadaria não se concretizaram, do ponto de vista da autoridade tratava-se apenas de um conflito de interesses. Por isso, não houve queixa formalizada.
Por fim, chegou o advogado da imobiliária. “Baixaram logo o tom da voz, pois o que queriam era negociar”, recorda Infante do Nascimento. Acabaram por levar o dobro do sinal que tinham dado, 15 mil euros, “mas começaram por pedir três vezes mais”.

“Enganaram-me
legalmente”
O director da marina de Albufeira, Fernando Nunes, onde também aconteceu uma situação semelhante, contactado pelo PÚBLICO limitou-se a assumir não ter “interesse na divulgação” do episódio. Por sua vez, Ilídio Alves, construtor do empreendimento Terraços do Pinhal, em Vilamoura, entende que é um dever “alertar” a opinião pública. “Enganaram-me legalmente”, desabafou.
Após ter depositado o cheque de 50 mil euros que lhe tinha sido entregue por “Nelo” (é alcunha), como “sinal” da transacção, a situação seguiu o guião tradicional. Primeiro, o cliente telefonou a perguntar se podia “mostrar o apartamento à família”. Depois, apareceu um grupo de quase meia centena de pessoas. Segundo conta o instrutor, ao entrarem no empreendimento, ouviram-se exclamações de agrado: “Que bela piscina”, “Temos sítio para o cão” e “Vamos aqui fazer grandes festas”…
De inicio, quando se deslocaram a Vilamoura para aquisição do imóvel no valor de 275 mil euros, os compradores viajavam num Audi topo de gama, trajando de forma moderna. Mais tarde, passaram a usar carrinhas e vestiam-se de forma tradicional.

Tentativa falhada
Na abordagem para a rescisão de contrato as coisas complicaram-se. “Cada vez que me telefonava, “Nelo” pedia mais cinco mil euros.” Quando a fasquia chegou aos 45 mil euros de lucro, deu por fechado o negócio. Porém, no dia em que vinha assinar a rescisão do contrato trazia consigo mais de 30 elementos da família. “Afinal, só vendo se me der [além dos 50 mil euros do sinal] mais 60 mil.” Ilídio Alves, conta, decidiu nesta altura pôr um ponto final na situação: “Cada um assume a sua parte do contrato, assunto encerrado.” O cigano aceitou os 45 mil euros de lucro e partiu para outra. A paragem seguinte foi em Albufeira.
Na semana passada, a companheira de “Nelo da Purificação”, arquitectou uma cena semelhante. Mas, pela primeira vez, só levou o valor do cheque que tinha entregue para sinalizar o contrato – 15 mil euros. A abordagem da compra processou-se de forma idêntica aos casos anteriores. Primeiro, ela, depois toda a família. Desta vez, o alvo foi a urbanização Alto dos Caliços, Albufeira.
“Quiseram fazer acampamento dentro do empreendimento e provocar distúrbios, mas foi-lhes lembrado que há regulamentos e leis para cumprir”, recorda o administrador António Pereira. Ao voltarem à carga, no dia seguinte, a GNR mostrou-lhes os cães e foi quanto bastou para mudarem de estratégia.
A seguir, a rapariga telefonou a António Pereira, informando: “O meu marido queria ir aí abaixo com a família, mas eu desisto da compra. Nós somos pessoas de bem.” O documento de rescisão do contrato foi assinado no posto da GNR de Albufeira. O casal deu como residências a Cova da Piedade e a Costa da Caparica, na margem sul do Tejo, junto a Lisboa.

Fonte: Jornal Público

Sobre o Autor

APEGAC - Direção

A APEGAC é uma associação sem fins lucrativos de empresas cuja actividade principal e objecto social é a Gestão e a Administração de Condomínios.

Comentar

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

NEWSLETTER

Murprotec

Murprotec

Área Reservada

Este espaço poderá ser seu. Consulte-nos.

Este espaço poderá ser seu. Consulte-nos.

Notícias por Tema

Notícias por Data