Pedir um crédito à habitação: sonhar com uma casa nova é a parte fácil. O que é complicado é olhar para uma simulação de crédito e assimilar a míriade de  siglas, termos técnicos, listas de custos, obrigações adicionais e previsões de subida da prestação.

O senso comum dirige o olhar para o valor mensal a pagar ao banco e dá a tentação de assumir de imediato a decisão de avançar ou não. Mas há muito mais do que a prestação ater em conta.

Garanta que toma a decisão mais ajustada, de forma ponderada.

TAXA DE ESFORÇO

Antes de assinar qualquer contrato de crédito, é fundamental que calcule a sua taxa de esforço. Este indicador traduz o peso dos empréstimos nos rendimentos do agregado. Se já tem uma simulação de crédito à habitação, some a prestação proposta às restantes prestações fixas que tem e divida o resultado pelo seu rendimento líquido mensal. No final, multiplique por 100. Encontrou a sua taxa de esforço. A bem da saúde financeira da família, o valor não deve ser superior a 35 por cento.

 FINE

Se pediu uma simulação de empréstimo à habitação, este documento tem de estar na sua mão. É na Ficha de Informação Normalizada Europeia (FINE) que encontra os dados de que precisa para analisar a proposta de crédito e compará-la com outras. A FINE tem de indicar elementos como a taxa anual nominal (TAN) aplicável ao empréstimo, a taxa anual de encargos efetiva global (TAEG), os custos associados ao crédito, o montante total imputado ao consumidor (MTIC), as vendas associadas facultativas (contratação de outros produtos em troca de condições de financiamento mais vantajosas), o prazo, a prestação e o quadro de reembolso, com previsões de subida da prestação.

 TAXA VARIÁVEL, FIXA E MISTA

A taxa anual nominal (TAN) a aplicar ao crédito pode ser variável (a mais comum), fixa ou mista. Na maioria dos casos, a primeira e composta por spread (margem de lucro fixada pelo banco) e Euribor (componente variável da taxa de juro) somados entre si. A taxa fixa não sofre variações ao longo do empréstimo, mas tem o reverso de, historicamente e pelo menos no início do contrato, ser mais elevada do que a variável. Nos contratos com taxa mista, há um primeiro período em que a taxa é fixa, passando depois a variável.

CUSTOS INICIAIS E PERIÓDICOS

Pedir um crédito à habitação implica um conjunto de custos iniciais (comissões várias e impostos) e periódicos, como a comissão mensal de processamento da prestação e o encargo relativo a manutenção da conta à ordem associada ao crédito.

 EURIBOR

Se optar por um crédito com taxa variável, vai ter a companhia da Euribor ao longo do empréstimo. É o indexante usado para a quase totalidade dos financiamentos bancários. É calculado diariamente e traduz a taxa de juro dos empréstimos que os bancos comerciais fazem entre si na Zona Euro. No decurso do contrato de crédito, o valor é revisto de forma periódica. Acautele, por isso, possíveis variações. Para cima, sobretudo. Estas terão reflexo na prestação a pagar.

 VENDAS ASSOCIADAS FACULTATIVAS

Para oferecerem condições de crédito mais vantajosas, os bancos exigem, muitas vezes, a contração dos seguros de vida e multirriscos-habitação na mesma instituição, entre outros produtos. Pode ou não valer a pena, consoante haja opções mais baratas no mercado. Peça sempre uma simulação sem as vendas associadas incluídas, para que possa fazer as contas.

 COMPARAR OFERTAS

Não se fique pela proposta do seu banco. Vá à concorrência e peça várias simulações. Só pesquisando o mercado e comparando propostas saberá qual a que mais se adequa as suas necessidades e a sua situação financeira. Não se esqueça de que o crédito a habitação tem uma duração longa. Ou seja, pequenas diferenças na prestação mensal podem significar milhares de euros ao fim de 30 anos.

 PRAZO DO EMPRÉSTIMO

É fácil cair na tentação de contratar o prazo mais alargado possível para poder ter uma prestação mais baixa. Mas, quanto maior o tempo de reembolso, mais demorada se torna a amortização de capital e mais juros o consumidor acaba por pagar. Há que equilibrar a prestação mais adequada ao orçamento da família com um período de empréstimo que não encareça muito o crédito. Peça simulações para diferentes prazos, de modo a perceber o impacto do tempo nas prestações, nos juros e nos outros encargos do empréstimo. Se necessário, pode começar com um prazo mais longo e, assim que possível, reduzi-lo de modo a suportar menos juros.

 TAEG

Não caia no erro de olhar apenas para a prestação simulada. A taxa anual de encargos efetiva global (TAEG) é o instrumento mais rigoroso para comparar diferentes propostas de crédito. É o único indicador que reflete todos os custos do crédito, incluindo juros e comissões. A taxa anual nominal (TAN) só dá a conhecer o custo com os juros. E o spread não diz tudo: mesmo baixo, pode, em comparação com outros empréstimos, traduzir-se num crédito mais caro. Basta que os custos iniciais e mensais do financiamento sejam mais altos.

 SPREAD

É a componente fixa da taxa de juro e representa a margem de lucro do banco. Os spreads são livremente estipulados pelas instituições de crédito, mas não são aplicados cegamente. Há spreads mínimos e máximos. Para obter um spread mais reduzido, os bancos exigem, muitas vezes, a subscrição de seguros e de produtos bancários adicionais. Se o cliente der uma entrada robusta ou o valor do empréstimo for significativamente inferior ao valor do imóvel, também consegue, por norma, um spread mais baixo.

 MTIC

É mais uma importante sigla a decorar. O montante total imputado ao consumidor (MTIC) corresponde ao valor global que o cliente terá de pagar ao banco durante o prazo do crédito. É a soma do valor do empréstimo com os custos associados ao financiamento (juros, comissões, impostos e outros encargos). O MTIC pode assustar, porque traduz, num número com muitos zeros, o quanto lhe vai custar, de facto, a sua casa nova. Ao comparar propostas, é também para aqui que deve dirigir a sua atenção.