Imobiliárias já dão conta de um movimento de transição do alojamento local para o arrendamento, que deverá intensificar-se nos próximos meses.

A crise provocada pelo coronavírus vai levar a uma dinamização do mercado de arrendamento tradicional, sobretudo devido ao impacto sobre os proprietários de alojamento local, que serão obrigados a procurar esta solução para rentabilizar os imóveis. Esta é a previsão de vários operadores imobiliários, que participaram, na terça-feira, numa conferência sobre os efeitos da pandemia neste setor.

Este movimento já tem sido notório recentemente. “Nas últimas semanas, vários investidores têm-se dirigido às nossas agências para fazerem a conversão de um alojamento local em arrendamento tradicional. Com a diminuição atual do turismo e as expectativas para os próximos meses, este movimento acelerou nas últimas semanas e esperamos que venha a aumentar significativamente nas próximas semanas”, disse Ricardo Sousa, presidente da Century 21, na teleconferência promovida pela Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII) e pela publicação Vida Imobiliária.

O mesmo espera Pedro Vicente, administrador da Habitat Invest, empresa de investimento imobiliário. “Há uma franja do alojamento local que não é profissional e que já era previsível que, um dia, iria cair, não só pela não profissionalização, mas também, pela falta de escala. Essas unidades vão acabar por transitar para o arrendamento. Esse era um movimento que já se sentia há algum tempo”, afirmou. O maior desafio, quando isso acontecer, será a definição do preço. “O mais prudente é uma moderação do preço. Sempre houve procura pelo arrendamento, o desafio está do lado da oferta e passa pelo poder de compra das famílias para absorver essa oferta”, apontou Ricardo Sousa.

Os operadores presentes na conferência esperam, assim, que os alojamentos que venham a transitar para o mercado de arrendamento tradicional possam integrar os programas de arrendamento acessível hoje existentes.

Juros baixos vão ajudar

Os operadores imobiliários admitem que, nas últimas semanas, houve vários adiamentos na concretização de transações ou na realização de escrituras, mas esperam que o novo coronavírus tenha um impacto pouco prolongado. Sobretudo, porque a manutenção dos juros em níveis historicamente baixos fazem com que o setor permaneça atrativo para os investidores. “Do lado dos investidores internacionais e, em especial, dos que investem em Portugal e na Europa, o que percecionamos é uma visão de otimismo cauteloso. Há alguma apreensão para o próximo mês, em que vamos ter impacto negativo, mas, a médio prazo, há otimismo. Os investidores esperam que, ao fim de 12 meses, consigamos ter uma recuperação no setor”, referiu Hugo Santos Ferreira, vice-presidente da APPII.

Certo é que os preços deverão baixar. Num inquérito feito “online” durante a conferência, que obteve respostas de 200 operadores, mais de metade (56%) admite que os valores dos imóveis vão cair. Outros 41% esperam um impacto apenas moderado e só 2% antecipam estabilidade neste campo.