O mercado imobiliário, nomeadamente o da construção, teve um abrandamento significativo, mas não está parado, apesar de ter pela frente o desafio da escassez de matéria-prima. Os tempos são de incerteza, mas de alguma esperança.

Os efeitos de um forte abrandamento económico despoletado pela atual crise sanitária estão já no horizonte de todos os setores. No imobiliário, o impacto já se faz sentir, apesar dos vários intervenientes admitirem que ainda é um pouco cedo para quantificar o prejuízo que resultará deste período.

As associações do setor da construção estimaram, em março, que num cenário de paragem de obras a queda do volume de negócios das empresas atingiria 1,77 mil milhões de euros, tendo por isso pedido medidas extraordinárias, como a suspensão, por dois meses, das obrigações fiscais e contributivas. Isto num cenário de paragem, algo que não está propriamente a registar-se, uma vez que esta indústria continua a laborar, obviamente com fortes condicionantes, desde logo na área da construção com a escassez da matéria-prima, e na área da promoção com o confinamento social a que a população está, ainda sujeita.

No entanto, apesar de ser visível o adiamento de alguns investimentos, o momento atual vai nivelar o mercado, sendo este arrefecimento visto pelos compradores como uma oportunidade, o que vai provocar um aceleramento no segmento dos imóveis usados. Ou seja, os analistas preveem que os particulares vão rever em baixa o preço dos seus imóveis, uma situação que se começava a verificar no ano passado, mas que vai acelerar com o problema da pandemia.

Apesar de tudo, parece consensual que o setor – a construção e o imobiliário é um setor responsável por mais de 600 mil trabalhadores – se profissionalizou e, de alguma forma, está preparado para esta crise.

Procura continua

José Calhau, da Remax Lounge, explicou ao Público Imobiliário que o mercado de Setúbal, por exemplo, é um dos que regista um abrandamento, mas não uma paragem de atividade. “Temos continuado a fazer escrituras, angariações e contratos promessa. Obviamente que de uma forma diferente, com mais cautelas, mas continuamos a fazer”. Sobretudo, salientou o profissional, continua a haver procura. “Os negócios vão-se fazendo”.

Relativamente ao preço dos imóveis, José Calhau não fala em arrefecimento, mas antes numa “correção” que tem vindo a acontecer já desde fevereiro. “Temos de ter em atenção que no último ano vínhamos de uma subida de preço mês após mês, pelo que esta situação de correção, mais tarde ou mais cedo, iria acontecer. O asking price que os proprietários colocavam nos contratos de mediação já estavam a ser corrigidos no fecho do negócio”. Apesar de tudo, José Calhau diz que Setúbal estava “na moda” – até pela pressão imobiliária a que Lisboa, a 40 quilómetros, vinha a sofrer – e vai continuar a estar após o regresso à normalidade.