O turismo, o automóvel, o comércio e a restauração são os setores referenciados como dos mais expostos aos efeitos da covid-19. Mas também na indústria e na construção há quebras. Veja as perspetivas das principais atividades empresariais.

 

IMOBILIÁRIO VÊ RETOMA RÁPIDA

Num setor em que a presença física é crucial para fechar vendas, o confinamento teve efeitos imediatos. As decisões de investimento foram adiadas e várias operações já em curso foram suspensas, havendo já quebras na procura. Na semana de 13 a 17 de abril, quase um quinto das empresas de construção e atividades imobiliárias já dava conta de uma redução superior a 75% no volume de negócios, enquanto mais de metade apontava para quebras entre os 10% e os 50% nessa semana. Mas o setor, que conta com 52,2 mil trabalhadores, acredita que a recuperação será mais rápida do que noutras áreas da economia. Com as taxas de juro negativas e a volatilidade nas bolsas a fazerem do imobiliário um investimento atrativo, os operadores acreditam não só que os investidores deverão regressar rapidamente, como será possível evitar quebras nos preços. Mas admitem que não haverá recordes em 2020.

SETOR AUTOMÓVEL EM PONTO-MORTO

O setor automóvel encontra-se praticamente parado desde a declaração do estado de emergência. As fábricas suspenderam a produção na segunda metade de março e apenas a Autoeuropa retoma a produção esta segunda-feira, com turnos reduzidos. No comércio automóvel, os concessionários fecharam e apenas se realizam vendas online. A quebra nas vendas em abril situa-se em 86%. Nos usados, o negócio está praticamente parado na totalidade. As empresas do setor automóvel, incluindo as fabricantes de componentes, estão na sua maioria em lay-off. O setor automóvel no seu conjunto representa 19% do PIB, emprega diretamente 200 mil pessoas e pesa 25% nas exportações de bens, com sete das 10 maiores exportadoras em 2019. Nos componentes, a AFIA estima uma quebra de 30% na faturação este ano. A ACAP admite uma quebra de pelo menos 25% na produção automóvel e de mais de 35% nas vendas de veículos.

PERDAS “ENORMES” CHEGAM AO VINHO

O setor continua a trabalhar “com relativa normalidade”, mas as perdas são “enormes”, aponta Jorge Henriques, presidente da Federação Portuguesa das Indústrias Agroalimentares (FIPA). A indústria, que no ano passado obteve um volume de negócios na ordem dos 18 mil milhões de euros e exportou 5 mil milhões, ainda está a ultimar a soma dos prejuízos. Há subsetores, como o das flores e plantas, que apontam para quebras na faturação na ordem dos 70%, devido ao corte nas exportações. Mas as empresas mais penalizadas da indústria agroalimentar são as que dependem “em mais de 50%” da hotelaria e da restauração. Como acontece com a indústria do vinho, que registou nas últimas semanas perdas que oscilam entre 20% e 100%, sendo que a média situa-se nos 50%, reporta Ana Isabel Alves, secretária-geral da Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal (ACIBEV).

COMÉRCIO PESSIMISTA

O comércio fechou 2018 com um volume de negócios de 145 mil milhões de euros, que deverá encolher este ano. O último estudo da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP) revela que, para o conjunto de 2020, 55% das empresas preveem um declínio das vendas superior a 20%. O mais recente inquérito do INE e do Banco de Portugal sobre o impacto do vírus na economia conclui que cerca de metade das empresas de comércio teve, na última semana, uma quebra no volume de negócios entre 50% e 100%. Na restauração o cenário é semelhante. A Associação da Hotelaria, Restauração, e Similares de Portugal (AHRESP) calcula que quase metade das empresas do setor registou uma quebra de faturação em março superior a 80%. Já a associação PRO.VAR prevê que a pandemia conduza ao encerramento de 30 mil empresas da restauração, um terço do total, e que atire 150 mil trabalhadores para o desemprego.

CONSTRUÇÃO COM MAIS DESEMPREGO

O setor da construção estima um impacto mensal de 493 milhões de euros com a paragem da atividade, tendo em conta a perda de volume de negócios e a manutenção de despesas com trabalhadores e com a banca. Apesar de continuar a haver obras no terreno, o impacto da covid-19 já se faz sentir, designadamente no emprego, com o aumento do número de desempregados, em março, em 11,3%. Já o inquérito do INE e Banco de Portugal às empresas revela que neste setor 10,7% encerraram temporariamente e 1,1% definitivamente. A redução do volume de negócios já se faz sentir em 63,3% destas empresas, mas a maior fatia (35,9%) diz conseguir aguentar mais de dois meses nas condições atuais. Já 5,8% não conseguem aguentar um mês. E se ainda não há dados para o mercado de obras particulares de março, os concursos públicos, segundo dados do setor, somam valores cinco vezes inferiores aos de há um ano.

TURISMO ESPERA METADE DA RECEITA

Sem receitas em março e abril, o turismo é dos mais afetados. A Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) espera uma quebra de 50% em 2020, o mesmo cenário admitido pelo Governo para todo o setor. “Teremos choques de receita de 50% face a 2019”, disse a secretária de Estado do Turismo. Nesse cenário, as receitas turísticas totalizariam 9,2 mil milhões de euros este ano. Isto num setor com mais de 320 mil trabalhadores, que vale 11,3% do PIB. A aviação também espera um forte impacto, até devido às restrições impostas por vários países à mobilidade. Na TAP, que passou de mais de 3.000 voos por semana para cinco, as receitas caíram quase na totalidade. Uma redução que teve início a 1 de abril e vai estender-se, pelo menos, até 4 de maio. Tendo em conta que, em 2019, a companhia registou receitas de passagens de 2,9 mil milhões, isso equivaleria a uma perda de cerca de 240 milhões por mês.

RETOMA EM MAIO TRAZ METALURGIA E METALOMECÂNICA À TONA

Composto por 15 mil empresas, o setor da metalurgia e metalomecânica está a contar com uma redução de faturação próxima dos 3,5 mil milhões de euros no segundo trimestre (quebra homóloga entre 40% e 50%), que “decorre essencialmente de adiamentos de encomendas e não de cancelamentos”. Pelo que, acredita Rafael Campos Pereira, o porta-voz da indústria mais exportadora da economia nacional (AIMMAP), “se a situação estabilizar durante o mês de maio será possível recuperar ainda em 2020 uma parte muito substancial da queda”. Neste quadro – e não havendo nova paragem da economia provocada por uma segunda vaga do vírus –, o impacto nas vendas pode não ultrapassar os 5% no final do ano, face aos 31 mil milhões de euros registados em 2019. Assegurando atualmente perto de 250 mil empregos, o responsável garante também que “a extinção de postos de trabalho será residual” neste cenário.

MOBILIÁRIO SOFRE NA EXPORTAÇÃO

O cluster do mobiliário, que inclui também colchoaria, tapeçaria ou iluminação, num total de 4.500 empresas e 31 mil trabalhadores, estima que a crise do novo coronavírus, que vai pôr dois terços do setor em lay-off, terá um impacto negativo de 30% na faturação anual, em relação a 2019. “Face ao perfil exportador, o impacto da pandemia começou a sentir-se ainda antes de o vírus chegar a Portugal. E é expectável que as consequências se mantenham para lá do levantamento das medidas nacionais de restrição”, resume Gualter Morgado, diretor executivo da APIMA. França e Espanha somaram 60% das vendas ao exterior nos primeiros meses do ano, pelo que “a retoma da atividade económica destes dois mercados será essencial para o cluster”, acrescenta. O gestor crê que “boa parte” dos funcionários dispensados venham a ser absorvidos por empresas de maior dimensão, mas não evitará a perda de 15% dos empregos até dezembro.

CALÇADO ESPERA “ANO MUITO DURO”

“Nesta altura, tudo é profundamente incerto e dependerá da duração da pandemia. O que sabemos: vai ser um ano duro. Muito duro”, assume Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da associação do setor, em declarações ao Negócios. De acordo com o último inquérito de conjuntura semanal da APICCAPS, quase metade (46%) das empresas da “indústria mais sexy da Europa” está atualmente fechada. “Mas deverão voltar ao trabalho regular em maio”, sinaliza Paulo Gonçalves. Do total das empresas inquiridas, 92% reportam um impacto negativo com a pandemia. Redução das encomendas (79%) e dificuldade de abastecimento das matérias-primas provenientes do exterior são as grandes dificuldades apontadas. O setor do calçado, que emprega cerca de 37 mil pessoas, exporta mais de 95% da sua produção, tendo fechado 2019 com vendas de 1,8 mil milhões ao exterior.

TÊXTIL TEME QUEBRA DE DOIS DÍGITOS

Até final de abril, cerca de 70% da indústria têxtil e do vestuário terá entrado em lay-off total ou parcial, com a quebra na faturação de 50% a 70% este mês. As estimativas são do líder da associação do setor (ATP), frisando, porém, que “a quebra nas receitas será maior”, pois “os clientes estão a atrasar os pagamentos vencidos de encomendas entregues”. Mário Jorge Machado admite “uma quebra no emprego de 5% a 10%” no conjunto do ano. Sobre a evolução do negócio assume que é difícil fazer previsões. “Não sabemos quando e em que condições vai ‘abrir’ o nosso mercado, sobretudo o europeu e americano, principais destinos das exportações. É difícil estimar o rendimento disponível das famílias após a crise e quais vão ser as suas prioridades de consumo. Mas entre três meses (ou mais) praticamente sem atividade e três meses (ou mais) com uma retoma muito lenta, podemos facilmente chegar a uma quebra na faturação de dois dígitos”, calcula.